domingo, 20 de março de 2011

Thiago Henrik (Enthulho Musical)

O Thiago que faz aniversário hoje (parabéns, parabéns, hoje é o seu dia, que dia mais feliz!) tem um blog que fala de música e assim vai nos presenteando com o que ainda há de bom por ai. Simples e direto, eis aqui um pouco dele que por sinal

1. Como surgiu a ideia de ter um blog que fala essencialmente de música? Já pensou em ser músico?


Sempre gostei de música. De pequeno prestava atenção nas coisas que meus familiares ouviam - irmã tinha o lado mais pop e sempre esteve antenada com as novidades da época - ouvia Madonna, George Michael, Michael Jackson, Kid Abelha. Meu pai era um grande seguidor da MPB, dentre seus preferidos destacaria a turma da Tropicália e os reis do Baião (Luiz Gonzaga, Dominguinhos...). Meu avõ de longe sempre foi o mais crítico de todos, daquele tipo que "só o que ele gosta é o que presta" e reagia agressivamente a novidades. Tradicional e espirituoso (risos). Nesse bojo inteiro foi nascendo meu interesse musical, que foi se moldando á medida que fui crescendo. Não sou músico - já pensei em ser., Meu pai é. Toca violão maravilhosamente bem e sempre é requisitado nas festas de familia que terminam sempre com música ao vivo. Um dia penso em seguir seus passos. Por hora, apenas um apreciador...(risos)
O blog nasceu da forma mais simples possível: desabafos por letras de musica. Toda semana postava uma musica nacional que estava representando o que eu estava sentindo naquele momento e aos poucos o catálogo foi aumentando. De 2004 ao começo de 2010 ele funcionava no blogger da Globo.com, só em Abril de 2010 que ele foi transferido pro blogspot e encontra-se nos moldes atuais.  Criei uma linguagem mais "revista musical", que é como gosto de chamá-lo. O formato de inserir o texto sobre o artista e a letra de uma música está mantido, mas eu invisto mais em crônicas, depoimentos de convidados sobre determinada música, listas temáticas, curiosidades, novidades, histórias da música brasileira.  Pesquiso bastante pra não passar conteúdo falso e procuro sempre deixá-lo atualizado. Às vezes deixo de fazer até coisas de trabalho pra priorizá-lo! (risos)

2. Que artistas você começou a gostar primeiro e quais você nunca deixou de ouvir?

Pergunta das mais dificeis. Eu nunca digo com tanta convicção que odeio determinado artista, pois eu sempre vou encontrar aspectos positivos em algum ponto de sua trajetória. Eu adoro vários. Acredito que Maria Bethânia é uma das artistas que sempre acompanhei - quando pequeno, pelos discos que haviam aqui em casa. Na adolescência, redescobri Bethânia graças a intervenção de um grande amigo meu, Fernando, esse sim um verdadeiro especialista musical que me ensinou, dentre outras coisas, a "sentir" as músicas. Estudar as metáforas feitas e apreciar uma boa música como se fosse uma poesia. Não há definição melhor.
Mas a pergunta é sobre artistas. Há sempre o primeiro filão que acompanho (ou aos que estão  falecidos, que acompanhei) com fervor e fidelidade ferrenha: Adriana Calcanhotto, Paulinho Moska, Cássia Eller, Tom Jobim, Chico Buarque, Marisa Monte, Lenine, Djavan, Elba Ramalho, Skank, Paralamas do Sucesso, Elis Regina, Tom Zé, Guilherme Arantes, Chico César, Raul Seixas, Nara Leão, Alceu Valença, Marina Lima, dentre outros tantos. Uns encontram-se quase no ostracismo, mas ainda assim sempre busco informações sobre o que estão fazendo, se tem material novo e até sobre suas vidas pessoais. Num lugar cativo, à parte, deixo registrado meu amor peculiar pela obra de Zélia Duncan, artista que admiro em todos os sentidos e por quem já fui capaz de fazer viagens homéricas só para contemplá-la!
No âmbito internacional, tenho meus artistas consagrados - os quais sou eternamente devoto, sem ordem de preferência: Alanis Morissette, Sarah MclachLan, Tori Amos, Natalie Merchant, R.E.M., Smashing Pumpkins, Beatles, Depeche Mode, Duncan Sheik, Everything But The Girl, Macy Gray, Cyndi Lauper, 10000 Maniacs, Massive Attack, Portshead, Cranberries, Garbage, Roxette, U2, Placebo, New Order, Melissa Etheridge, Paula Cole, Tracy Chapman, Kate Bush, Carpenters, Queen...

3. Para você, quais músicos são mega estimados e quais menos valorizados atualmente?

Eu critico meu avô, mas eu também sou reacionário com novidades da profundidade de um pires. Eu não consigo gostar de músicos sem conceitos, "da modinha". Não enxergo graça no estardalhaço que a mídia faz para um show da Beyoncé, por exemplo. Britney Spears então - as beeas podem me odiar, mas eu acho que ela é o resultado de uma grande fabricação mal estudada e que deu errado. Daí os fãs tentam justificar o sucesso das empreitadas com altas vendagens e com a quantidade de exposições diárias na mídia. Pra mim isso não quer dizer absolutamente nada. Música boa é aquela que toca na alma, que ao menos tenta traduzir um sentimento verdadeiro, profundo, ou fazer apologia a alguma causa que realmente interesse; Pode não ter uma letra muito profunda, mas pode compensar com um instrumental bem harmonizado que faça você sentir prazer em ouvir. Sem rótulos. Não deve apenas ser classificada como boa só por ser conhecida ou por tocar insistentemente no rádio. Ano passado, no meu outro blog, ETHos, eu fiz uma crítica sobre a super estimação da carreira de Madonna até em seus percalços. Fui atacado violentamente pelos fãs da cantora (risos), mas me rendeu também um convite pra ter uma coluna no portal "Estilo Madonna", onde escrevo sobre cultura em geral.
No Brasil, eu confesso que não enxerguei grandiosidade nas obras de Maria Rita e Maria Gadu, por exemplo. Chico Buarque é um autor com letras perfeitas e entende como ninguém a alma feminina, mas não passa emoção ao cantar - sua obra sempre é melhor representada pelas mulheres no vocal. E acho que Guilherme Arantes poderia ser sempre lembrado ao lado de grandes compositores brasileiros.

4. Qual sua opinião ao fato de que a boa música brasileira hoje em dia não tem mais tanto espaço em nossa TV como antes? Porque acha que isto acontece?

A Tv deu um grande incentivo a carreira de vários artistas brasileiros - muitos deles só tiveram a projeção que lhes impulsionaram graças a aparições televisivas (Djavan, Gal Costa, Elis Regina, Clara Nunes...). Antigamente, tanto a Globo quanto a Tupi e a Record promoviam grandes festivais musicais, como o famoso "FESTIVAL DA MÚSICA BRASILEIRA". Nada mais eram do que campeonatos de canções que eram televisionados e que renderam histórias curiosíssimas, como a de Caetano Veloso brigando com seu público em 1968 no III Festival da Canção. Na época, a música tinha uma função bem maior - era a forma de protesto metafórica contra a Ditadura, o que fez com que vários cantores fossem exilados por conta do "desrespeito". Na realidade, a ousadia aliada à carga cultural causavam um impacto muito mais forte do que existiria hoje, por exemplo.
Nos anos 80, o rock brasileiro, querendo ou não, também fez parte de um movimento cultural interessante. Também teve músicas-abobrinhas, mas também foi responsável por hinos de protesto que marcaram uma geração, e também por belas músicas (Cazuza, a meu ver, escreveu canções que são eternizadas até hoje!). Com a banalização musical brasileira, essa função parece ter perdido o valor ou simplesmente desinteressado. Eu lembro que em 2000 a Rede Globo tentou ressucitar o outrora bem sucedido "Som Brasil", e acabou sendo um desastre. Hoje em dia Luan Santana interessa muito mais á mídia televisiva do que um show de Maria Bethânia, por exemplo. A música brasileira está destinada apenas a horários alternativos ou pouco acessíveis, por não dar audiência. Infelizmente, é verdade: já lamentei testemunhar gente que sai da frente da tv quando algum artista mais conceituado vai se apresentar num Faustão ou Raul Gil da vida.
Acho que o público também tem responsabilidade no desinteresse dos diretores de tevês não investirem mais tanto em música boa na tv aberta. Não daria audiência...

5. O rótulo brega existe de fato?

Você está perguntando isso a uma pessoa que odeia rótulos. Por que, se formos levar a classificação ao pé da letra, as melodias de Ana Carolina e "Amor I Love You" de Marisa Monte seriam hinos do brega. No contexto, há músicas mais estilizadas e mais simples. A rotulação seria algo subjetivo.
Há artistas que se auto-denominam assim, como Adelino Nascimento, Falcão, Reginaldo Rossi por exemplo. E isso é tão impessoal que o pessoal da Itália desmerece a obra da romântica Laura Pausini - dizem que ela é cafona demais por lá!
É apenas um estilo diferente. Ser romântico não é ser brega - apenas é uma forma de priorizar o amor e o romantismo em sua obra.
Mas, como ninguém está livre de preconceitos, eu não considero o que Calcinha Preta, Tchan, Calypso e muitos mais fazem como música (risos).

6. Alguém já te decepcionou musicalmente?

Vários! Quando se é fã, a tendência é sermos mais exigentes mesmo. No âmbito internacional tenho o exemplo da cantora Jewel, do Alasca e que eu adorava. Ela fez discos belíssimos no inicio de carreira mas se enveredou pra massa pop a partir de determinado ponto só que, por incrível que pareça, isso representou sua destruição musical e hoje ninguém lembra mais dela.
Em terras tupiniquins, há vários exemplos: Titãs, no meio de sua carreira, perdeu o fio da meada e ficou intercalando álbuns conceituais com os excessivamente comerciais, coletâneas e registros ao vivo. Simone e Fafá de Belém tiveram começos promissores mas também se perderam ao se renderem a apelos comerciais. Gosto de artistas que não se traem - que façam o que querem sem pressão de gravadoras ou apelando para o capitalismo exacerbado. Não que não façam coisas mais populares, mas que mantenham sua unicidade e características maiores inclusive nelas!

7. Ate que ponto a internet tem sido benéfica para a música e quais as desvantagens que ela trouxe?

Em 2000, isso tudo começou e um dos pioneiros nessa coisa de troca de arquivos gratuitamente pela rede foi o Napster. 10 anos depois a gente constata que realmente houve um decrescimento muito forte na industria fonográfica. Por outro lado, não soube de nenhum artista que faliu por conta disso. Está mais do que comprovado que eles sobrevivem de outras formas de divulgação de seu trabalho - shows por exemplo. Quem realmente quebrou foram as gravadoras, que, aliás, tiveram também sua parcela de culpa - no fim dos anos 90, o preço do cd estava absurdo pros padrões na época. Quando a facilidade da internet pro acesso à música, juntou a realidade de muitos jovens que chegavam a economizar uma grande parcela de seu salário pra comprar discos com a malandragem brasileira de querer contar vantagem diante da ilicitude.
 (não esqueço nunca: o salário minimo era 151 reais e eu tinha um bico antes de entrar na faculdade e ganhava isso. Precisava rebolar pra ter tudo o que eu queria!)
Por outro lado, a internet é um meio de comunicação. Não estariamos aqui, nessa entrevista, sem ela, e houve artistas que realmente usaram e abusaram dela como meio de divulgação, até alcançarem a projeção que tanto buscavam. A questão é sempre contraditória: Madonna, mesmo o vazamento de músicas de seus álbuns na rede, sempre manteve-se no mais alto grau de vendagens com seus discos...ou seja, há tantas posições a se tomar que, ao final, se for tomar um partido, teria que pensar diversas vezes em ambos os lados (risos).
Em tempo: sou um fiel consumidor de cds, com um acervo de mais de 1000 e que também se rendeu às facilidades dos discos baixados pela internet. Porém, mantenho o hábito de comprar discos de quem realmente sou fã!


8. Ainda há espaço para o cd?

Sim, há! A despeito das trocas virtuais de arquivos em Mp3 e demais formatos de audio, a coisa de um artista lançar um álbum é tão antiga que acredito que jamais sairá de voga. Seja em LP, Cd ou formatos futuros, os álbuns sempre serão lançados e tratados como livros - divididos em 11, 12, 13, 14 capítulos, que são as músicas. Quem sabe num futuro os álbuns adotem o formato virtual definitivo e sejam comercializados pela internet, mas acredito que ainda terão vida longa sim!

9. Quais blogs ou sites indicaria que considera tratar bem este tema?

Quando o EnTHulho Musical estava em formação, tentei realizar parcerias com outros blogues de MPB. Não obtive êxito - não vi o que acontece com sites de outros temas, como os sobre televisão, por exemplo. Em vários que conheço há camaradagem, parcerias, indicações uns dos outros. Nos de música parece rolar uma competitividade que, decididamente, não tenho estrutura. Porém, há alguns que faço questão de relacionar aos meus favoritos por que são muito bons e sempre leio com prazer, até pra pegar elementos para o meu. Segue a lista:

"Minhas Raridades Musicais", sempre com verdadeiros discos temáticos montados pelo autor no blog e disponibilizados para downloads. Fiz verdadeiras coleções sonoras graças a ele!    http://minhasraridadesmusicais.blogspot.com/

"MPB-E-MOS-NOS" de Jardel Ther, com uma proposta semelhante e conteúdo bem diversificado! http://mpbemonos.blogspot.com/

"Notas Musicais", blog do crítico musical Mauro Ferreira. Resenhas muito boas, com um talento inegável de alguém que entende do riscado e também fala de música internacional! http://blognotasmusicais.blogspot.com/


10. O que diria aos leitores do seu blog?

Sou bem acessível aos leitores do blog. Agradeço comentários, vou até o seu blogue pra comentar em retribuição. Comentários são verdadeiros estímulos - sei de muita gente que segue o blogue e não comenta, mas eu escrevo livremente pra quem gosta de música nacional e sempre quer saber de curiosidades dessa parte brasileira que tanto nos dá orgulho.
A dizer-lhes? Apenas um GRANDE OBRIGADO!

13 comentários:

CIELLO disse...

gente...q bacana mesmo... e pasme.. essa semana, meio que sem querer passei pelo blog... e já de cara add a minha lista nas cronicas liricas!!! q coincidencia!!!

bjaum pros dois... entrevistador e entrevistado...

Daniel Pepe disse...

Ótima a entrevista do TH. Conheço o EnTHulho já há um tempo e, sempre que posso, visito e comento. Alta qualidade!

FOXX disse...

naum conheço o blog dele... =$

Edilson Cravo disse...

Muito legal a entrevista e mais bacana ainda conhecer uma pessoa que se dedica a falar de música de forma mais profunda. Linda semana. Abraços querido.

ManDrag disse...

Parabéns pela entrevista; aos dois.
É mesmo, a música não se pode catalogar, mas já os produtos industriais apenas com interesse económico...

Beijos

Fred disse...

Adoro esse teu momento MaríliaGabiGabrila!!!! Arrasou, Serginho!!!!!
Bjz!

Serginho Tavares disse...

Ciello, adoro estas coincidências da vida! Beijos!

Daniel Pepe, de fato e obrigado pela visita! Volte sempre!

Foxx, então foi uma boa oportunidade para conhecer não é?

Edilson Cravo, obrigado querido. Legal saber que você gostou! òtima semana pra você também. Abração

ManDrag, concordo. As gravadoras inventaram esses rótulos e se antes já não cabiam, agora que não cabem mesmo! Beijos meu amor!

Fred, eu também! Hahahaha Obrigado querido, você arraza também. Beijos.

António Rosa disse...

Adorei a entrevista. Esse menino é uma maravilha. Parabéns, Thiago, pelo seu aniversário.

Serginho, muito bom.

Agradecido.

Paulo Braccini disse...

Este post eu tive q ler com calma ... dois personagens ímpares de Blogsville ... adoráveis mesmo ... amei tudo o q li por aqui sobre o TH ...

bjux

Serginho Tavares disse...

António Rosa, muito obrigado pelo apoio constante e afeto!

Paulo Braccini, que bom que amou meu querido, mais uma vez obrigado pelo carinho sempre!

melo disse...

Serge, te dedico!
tens o dom de entrevistas, gostei e vou dar uma olhada nesse novo lugar.

e quando eu vou ser entrevistado? aquela comigo e com o wans não valeu, quero uma só minha!!!

Serginho Tavares disse...

melo: Obrigado meu lindo! Ouvir elogios seus é uma maravilha, um verdadeiro presente. Inestimável eu diria! Te adoro muito.
E quando serás entrevistado? Aguarde! Tenho uma boa surpresa para você!
Beijão

Isaac Abda disse...

parabéns pelo blog e pela entrevista... o Thiago é um brother e sempre gentil!