terça-feira, 26 de abril de 2011

Melo (Afternonsense)

Encontrei o Melo quando encontrei o Wans, na verdade o Melo me encontrou quando eu encontrei o Wans. Me encantei por  ambos imediatamente e hoje tenho a certeza que estas duas almas gêmeas são como irmãos para mim. Melhor, são mais que isso! Não conheço irmãos que tenham gostos tão similares, é impressionante o que temos em comum! 
Melo é um dos grandes escritores da blogosfera. Nos toca fundo com sua escrita e nos deixa entrar dentro de sua vida de uma forma ímpar. Eu já o havia entrevistado juntamente com o Wans  o ano passado, mas ele me pediu para fazer esta sozinho e um pedido deste moço a gente não nega. 
Nunca. 
Agora, neste mês de aniversário do Justo & Digno mais um post celebração com o fã de 2001- Uma Odisséia no Espaço, Melo!

Serginho Tavares:
Então meu querido, nos conte, como você se descobriu gay?
Melo:
Isso faz muito tempo, muito mesmo...mas acho que a primeira lembrança realmente gay que eu tenho era olhar na Revista do Círculo do Livro que minha mãe assinava e ficar encantado com um livro sobre educação sexual que tinha na capa duas crianças nuas: um menino e uma menina. A menina nem me interessou mas lembro claramente que o menino me encantou, eu devia ter menos de 10 anos eu acho...
Depois veio uma paixão platônica pelo ator de "Lagoa Azul". Essas são minha lembranças mais remotas se bem que nessa época eu nem sbaia o que era gay, viado ou afins
Gay mesmo eu me descobri acho que com uns doze anos, quando tive um babadinho com um colega da escola, quinta série. Daí eu já sabia que era viadagem mesmo e que eu era homossexual
Não que eu tenha aceitado assim numa boa, demorou um pouco para isso acontecer
Acho que é isso
Serginho Tavares:
E quando aconteceu mesmo, como foi essa aceitação?
Melo:
Eu tinha pouco mais de vinte anos acho. Havia tentado namorar meninas, mas não rolou mesmo e olha que até dar para mim algumas queriam mas, como transar com alguém de pau mole? Nessa época fui meio FDP pois saia com uma menina, gostava dela mas também saía com homens e quando um deles me interessava mais eu a deixava só para pedir para voltar quando o relacionamento não vingava
Na verdade, eu me sabotava e essa santa me aguentou muito tempo até que um dia eu conheço meu primeiro namorado, já falei dele no blog, morreu há alguns anos e com ele eu tive certeza de e do que eu era e queria e depois disso não teve mais volta, eu era homossexual e teria de viver assim, foi um processo lento mas eu estava seguro, só enroscou quando chegou na família
Acho que era uma questão de achar a pessoa certa e parar de minar todo relacionamento homo que eu encontrava. Mesmo depois de me assumir (para mim, digo), ainda sabotei muitos relacionamentos gays que tive por ainda não saber ao certo como lidar com tudo isso, mas com o tempo amadureci e peguei o jeito da coisa, eu acho.
Serginho Tavares:
Voltando um pouco, como foi o primeiro namorado? Foi o primeiro amor?
Melo:
Foi ótimo e um inferno ao mesmo tempo. Éramos os dois inexperientes, jovens e sem muito saber o que esperar de ujma relação gay, o termo em si era para nós um enigma e acho que um se escorou no outro buscando apoio para, juntos, acharmos as respostas. Amei muito ele, foi o primeiro, não é? Descobrimos muito juntos, fizemos muita coisa, era uma época em que ser gay era mesmo proibido e uma letra escarlate cravada na cara. Mas tinha o outro lado, não nos entendíamos às vezes, ciúmes, ele tinha um temperamento muito difícil e brigávamos com frequência, idas e vindas, mágoas até que um dia nos separamos de vez e só o revi uma semana antes dele morrer, já estava com Wans nessa época
Serginho Tavares:
Desculpe perguntar, mas do que ele morreu? Você soube?
Melo:
Ele tinha um quadro muito sério de depressão e fumava demais, isso acabou com ele e ele morreu de uma grave infecção pulmonar, estava fraco demais, ainda hoje acho que pode ter sido HIV, mas sua irmã dizia que eles tinham feito o exame e o resultado fora negativo, de qualquer forma ele se foi mas limpei minha consciência pois o vi antes disso, esse carma eu não levo para a cova.
Serginho Tavares: 
E quando surgiu o Wans em sua vida?
Melo:
Bom, eu tinha saído de um namoro breve, um ano, pouco mais e não nasci para ficar solteiro. Estar solteiro sem problema algum, mas ficar, não é para mim, sou pra casar! Enfim, eu já estava sozinho há um tempo e nada de engatar um namoro, um aqui outro ali mas nenhum assim interessante saca?
Então, uma amiga me atazanou tanto para fazer um cadastro noAlmas Gêmeas do Terra que fui lá e fiz. Dizia lá que era batata! Bom, cadastro feito, comecei a receber convites e fazê-los também até que cheguei no perfil do Wans, muita coisa batia, gostos muito parecidos e começamos a nos corresponder.
Uma semana nisso e sem trocar fotos, nada. Depois dessa tempo, finalmente nos falamos pelo telefone e mais uma semana se passou e finalmente resolvemos nos encontrar. Eu mesmo estava meio com o pé atrás porque ele falava muita gíria, pensava que ele era tipo 'mano' ou coisa do tipo, mas, como o papo era bom, resolvi arriscar. 
Um dia antes marcamos os detalhes (local, hora, etc) e veio a pergunta que nenhum dos dois tinha feito antes: "como você é?" Não haviamos nos descrito um para o outro e, como disse, muito menos trocado fotos. Bom, ele disse como ele era e eu disse como eu era mas, quando chegamos na questão do cabelo, eu disse que tinha alopecia e ele ficou meio receoso, mas, graças à sua amiga que disse ser tudo gente assim, ele resolveu me encontrar. Nos encontramos, o papo rolou, beijos também e pouco mais de uma semana depois já era namoro sério. Ele ainda quis me dispensar, mas quando sua amiga me viu me deu 100% de aval daí não teve mais volta e lá se vão nove anos!
Serginho Tavares:
Então essa menina é a madrinha de vocês!
Melo:
Verdade absoluta! E minha amiga que me fez entrar no Almas Gêmeas.
Serginho Tavares:
Então isso quebra a máxima que no Almas Gêmeas encontra-se pessoas apenas querendo sexo, certo?
Melo:
Ah, mas isso tem em todo lugar, você precisa filtrar...claro, sites como manhunt e afins tem essa conotação pesada de fudeção, mas quem garante que desse lugar não pode surgir um relacionamento? Meu primeiro namorado, o conheci no cinemão aqui do centro e ficamos juntos por cinco anos! Só fuder é bem mais fácil mesmo, relacionamento dá trabalho e ninguém quer ter trabalho!
Serginho Tavares:
Vocês possuem um relacionamento estável durante bastante tempo, isto causa muita inveja? Como lidam com isto?
Melo:
Olha, não me ligo muito nessa coisa de inveja sabe? E não vem com essa de inveja branca porque isso é mentira, inveja é inveja e pronto, não adianta querer por uma aura de sentimento puro que não cola. Quando temos inveja, temos inveja mesmo, ora! Claro, resta saber como você lida com ela, você vai a luta para conseguir algo tão bom ou melhor para si ou fica alimentando rancor e desejando que o outro se foda e perca tudo? Não sentimos inveja dos outros e se ela existe, quem a tem guarda para si mas, como dizem por aí, quem não pode mandinga, não carrega patuá, não é mesmo? Nunca tivemos nosso relacionamento abalado por esse tipo de coisa, ambos são meio descrentes desse poder nefasto que é atribuído a esse sentimento mas também, procuramos nos cercar de pessoas legais e que tenham suas vidas resolvidas, como nós. Quem é assim, acho que dificilmente perde tempo se preocupando com inveja e afins, isso é pra quem gosta de ficar remoendo os próprios recalques e fracassos.
Serginho Tavares:
E como trabalham o tempo? Monotonia, rotina... Vocês assumiram abrir o relacionamento de para uma terceira pessoa, como surgiu esta ideia e como funciona isto?
Melo:
Cara, isso é muito foda. Não adianta porque a rotina chega mesmo, são nove anos juntos e seria hipócrita dizer que ainda temos o mesmo desejo e somos como éramos no começo do relacionamento. O tempo muda e molda a todos, acho eu, então, aquele fogo todo do começo, o tesão desenfreado, tudo isso foi sendo moldado em um fogo menor mas que aquece bem nos dias frios e pode, ocasionalmente, por a casa em fogo. Mas isso adquirimos com o passar dos anos, acho que essa é a definição exata de amor, os anos se vão e você olha para a pessoa e sabe que o tempo arrefeceu o desejo, mas não a determinação e a vontade de estar ao lado um do outro, o sexo é essencial para uma relação, mas ele acaba supervalodrizado pois no fim do dia não quero saber o quanto eu gozei, mas que vou dormir ao lado de alguém que se importa comigo tanto quanto eu com ele, que vai estar ali no dia seguinte e quando eu precisar de apoio, que não vai ter nojo quando eu estiver doente e fraco, que vai segurar a minha mão e entender minhas escolhas e me apontar o dedo quando eu fizer merda. Acho que é isso.
Abrir a relação foi um consenso pois, como já disse, depois de nove anos o sexo não é mais o mesmo, quem consegue ainda tem meus cumprimentos e fico feliz por eles. Queríamos algo novo e resolvemos que michês eram a saída pois não havia desejo de envolvimento emocional, mas apenas uma agitada no sexo e assim foi. Nós temos uma cumplicidade imensa, rimos muito de nós mesmos, dos outros e de tudo, conversamos muito e acho que somos muito companheiros um do outro.
Serginho Tavares:
Você mantem uma postura política no seu blog. É algo natural ou sente a necessidade de falar sobre?
Melo:
Eu gosto de falar sobre o assunto, não sou estudioso nem letrado a fundo mas procuro expor meu ponto de vista sobre algumas questões que chamam minham atenção. Não sou tão politizado quando o DPNN e sou menos do que quero ser mas, procuro me manter informado sempre.
Serginho Tavares:
Sua veia literária é famosa e tem rendido grandes contos, o que podemos esperar daqui pra frente?
Melo:
Dei uma pausa. Não anda escrevendo nada ou, quando o faço, é muito pouco mas é só uma fase. Dizem que esse processo é composto 2% de inspiração e 98% de transpiração. Bom, para mim vale mesmo os 2% porque quando crio forçado serve apenas de referência para algo futuro, assim, prefiro escrever quando realmente tenho vontade. No mais, ainda tento publicar, mas é um trabalho lento e de formiga, mas eu sou paciente, também penso em alternativas como download pago de meus contos, mas ainda não resolvi se é por esse caminho que vou seguir.
Serginho Tavares:
Você deixa claro não gostar de crianças, então filhos nem pensar, certo?
Melo:
Isso mesmo, veja bem, apenas não gosto de crianças, fico puto quando vejo maltratos e coisas assim mas não sou compatível com elas. Não pensamos em adotar ou outros meios, não queremos mesmo ter filhos. Acho mesmo que algumas pessoas nascem com essa vocação, mas a grande maioria não sabe que pode escolher não ter filhos e quando veem casais que não os tem ficam frustrados tipo "Porque ninguém me  disse que isso não era compulsório?"
Meu irmão já garantiu que a linhagem da nossa familia vai ter futuro então, estou tranquilo. Pessoalmente, acho que as pessoas passam por um processo de bestificação quando procriam, vá lá, é uma mudança muito grande de estilo de vida e criar um filho é algo complexo e para o resto da vida e daí temos um abismo intransponível entre os que tem filhos e os que optam por não te-los, sentimos isso quando encontramos casais de amigos que tiveram filhos e nossas realidades são opostas, claro. São escolhas totalmente diferentes, mas acho chato quando quem procriou olha para você como se você fosse de outro planteta por não ter filhos.
Serginho Tavares:
Mas dai que se aparece uma "criança" de 19 anos pra vocês criarem esquecem isso tudo?
Melo:
Gato, prefiro pagar um cachê e mandar de volta para a rua. Criar? Adotar? Não, já tenho minha vida pra cuidar!
Serginho Tavares:
O que diria pras pessoas que te leem?
Melo:
Obrigado por me lerem. Sei que às vezes sou meio inconstante, mas quando escrevo, escrevo porque gosto e porque sei que existem pessos que gostam do que eu escrevo sejam posts simples ou contos. Acho que só isso.
Serginho Tavares:
Pra terminar, nosso querido JeD ta fazendo aniversário este mês e o que diria pros leitores?
Melo:
Que continuem lendo o JeD, já te disse que existe muita porcaria na rede, precisamos manter o que é legal rodando mas sempre pensando que é preciso ter o tesão de fazer, gosto. Se virar obigação melhor parar, já fazemos tanta coisa obrigados na vida e não podemos deixar que o prazer vire a mesma coisa. Quando você escreve, a gente vê que é com gosto, como quando eu crio um conto, tenho gosto em fazer, eu preciso disso, é meu prazer e não quero que isso vire rotina, trabalho. Se isso acontecer, prefiro parar de escrever e ir fazer outra coisa. Tem gente que joga tênis, futebol, faz academia, corre, nós, meu amigo, escrevemos, esse é nosso hobby, nossa fuga, nosso barato. O dia que deixar de ser assim será o dia em que pararei de escrever.

11 comentários:

Fernand's disse...

melo tem toda razão: inveja é inveja e pronto!

lindo relação dessas almas.



bj pra todos.

Fernand's disse...

lindo = linda

Wanderley Elian Lima disse...

Parabéns ao entrevistado e ao entrevistador. O Melo nos encanta com seus contos, inteligentes e sensíveis.
Beijos para ambos

Edu disse...

SUPIMPA!!!! :-) Sou fã.

Paulo Braccini disse...

Muito bom conhecer um pouco mais deste meu contista predileto ... Ele e Wans são figuras ímpares neste mundo de meu Deus ...

Parabéns ao Serginho e ao Melo ...

bjão

Wans disse...

Tô aqui com o coração apertado e com muito orgulhinho do maridão.

bjocas pela grande entrevista, gato.

Lobo disse...

Esse é o Melo. Tenho inveja, falo logo! :p

Dan disse...

Melo arrasa!
e vc tbem!
:D

Fred disse...

Arrasou!
Em suma: MELO me MELA!!!!
Amodoro!
Bjz!

melo disse...

obrigado a todos que leram e que me lêem.

e ao JeD pela oportunidade, sabes que tem amo.

DPNN disse...

Cai no blog do Wans nem sei mais como, e lá conheci o Melo. Desde então, ambos são leituras obrigatórias e ainda se revelaram grandes pessoas. Adorei e entrevista com o Melo!