domingo, 8 de maio de 2011

Renato Orlandi, O Ausente, Parte I

O entrevistado deste mês anda ausente, sumido mesmo, mas não o bastante para escapar desta entrevista feita há uns dois meses atrás quando ele aparecia eventualmente, E ela rendeu tanto que foi dividida em duas partes. Nesta primeira parte ele se revela um verdadeiro moço de família, Renato Orlandi.

Serginho Tavares:
Como surgiu o blog, porque resolveu confessar tudo na internet?
Renato Orlandi:
Eu sempre gostei de escrever, sempre gostei de Português na escola, de Literatura, apesar de odiar os livros que as professoras mandavam, sempre eram aqueles livros sobre drogas, gravidez na adolescência ou os clássicos que ninguem entende por ter linguagem de 1800 e minha avó de maiô, mas sempre que escrevia era elogiado, desde criança. Ganhei um concurso de literatura (um livro de poesia), comecei a escrever várias histórias como livros, mas fazia a trama muito extensa e me desanimava, mas no final do ensino médio para a faculdade eu era muito ocupado e comecei a me distanciar da escrita e minha leitura passou a ser bem específica sobre os assuntos do cursinho ou da faculdade e depois comecei a namorar até que comecei a me sentir bastante enferrujado, queria voltar a escrever para treinar minha redação mesmo, simplesmente isso, sem motivos de fazer parte de pseudo-comunidades intelectuais de gays ou poetas, nada disso, mas o stopin para que eu começasse o blog foi o término de um namoro, isso me deu a inspiração e a vontade necessária para escrever e desabafar, por mais que eu tenha começado por códigos por assim dizer, poemas e músicas de diversas autorias.
Serginho Tavares:
Como observa esta blogosfera?
Renato Orlandi:
Para mim a blogosfera é um tipo de universo infinito, no qual devemos tomar muito cuidado para não andar em círculos, sobre os assuntos ou temas. Poucos são os lugares de horizontes amplos, então, no meu caso, tenho meu porto seguro, meus blogs de sempre, que são amigos, que falam de homossexualidade, mas também leio blogs que saem dessa zona de conforto, por assim dizer, blogs de poesia, literatura, música, cinema, astrologia, portugueses, ingleses, blogs que não são diários. A blogosfera é uma forma de enxergar o mundo, pelos olhos das pessoas comuns, então tento sempre evitar as panelinhas ou discussões desnecessárias.
Serginho Tavares:
Saindo deste universo, você é assumido perante sua familia e amigos? No caso de sim, como foi se assumir completamente? Você tem uma irmã gay também, como é a relação entre vocês? 
Renato Orlandi:
Sou assumido, nós dois já contamos claramente, palavra por palavra e traduzimos para termos chulos e demos detalhes, mas minha família tem a tradição milenar cristã de viver de aparência, então todos fingem que não sabem, forçam ver o que querem, eu posso sair montado e de peruca a meia noite dizendo que vou ao parque que todos acreditam, mas para chegar a esse ponto não foi fácil, houveram muitas discussões, muito choro, eu estava namorando quando me assumi, contei para minha mãe exatamente no mesmo momento após minha irmã ter se assumido, cheguei onde minha mãe estava e olhando sua cara de choque (até entao sem saber o motivo) despejei minha bomba também. Ela ficou no quarto por alguns minutos, chocada olhando para o nada e depois saiu do quarto igual a menina do filme "O Exorcista", andando de costas pela parede e vomitando jatos verdes para todos os lados. Disse coisas horríveis das quais eu nunca me esquecerei, apesar de me esforçar muito para entender seu ponto de vista, sua criação, as coisas que acredita e até sua frustracao por nao poder ter mais "netos legítimos", uma vez que "ser o primeiro filho homem" significa muito na minha familia. Depois de muito tempo ela começou a aceitar e a dizer isso de forma muito codificada e sutil. Para as minhas amigas me assumi de forma que as chocou também, porque eu gosto de causar. Simplesmente cheguei na faculdade de aliança e disse "estou namorando" e elas super felizes e ansiosas para saber, se eu finalmente tinha "pegado" a menina que desmaiou em cima de mim na semana anterior, perguntaram "quem é a sorturda?". Eu apenas mostrei a aliança por dentro, elas viram o nome de um homem, os sorrisos ficaram amarelos e deram parabéns, mas aceitaram muito bem. Inclusive me ajudaram a superar as frases de efeito de minha mãe como "voce vai terminar drogado e com AIDS, sozinho no muno e jogado numa sarjeta na República, bairro aqui de São Paulo", especifica né? Faltou somente o dia e a hora, isso demonstra quão internalizado estão as coisas, por mais que tenha amigos gays.
Sobre ter uma irmã lésbica é como equilibrar o universo. Eu apanho dela, eu faço os trabalhos de casa e ela conserta as coisas, ela tem a voz mais grossa e eu que uso cremes hidratantes, apesar de ser toda feminina é um saco. Ela que mata as baratas e eu que fico recolhendo os lixinhos que caem do chão sabe? Eu acho que a minha mãe soube criar bem os filhos: fez dois gays, quer coisa melhor?
Serginho Tavares:
E o seu pai?
Renato Orlandi:
E o seu pai?
Ele fugiu quando eu era criança, traiu minha mãe, assumiu outra familia com outras 3 crianças e desapareceu no mundo depois da tentativa inútil da outra mulher tentar devolvê-lo, então considero meu avô como pai, ele nos ajuda muito, em todos os sentidos.
Serginho Tavares:
Você passa a ideia de ser muito apegado a sua família, deve isso ao seu avô?
 Renato Orlandi:
Talvez eu deva isso ao meu pai, depois da separação, ainda em Minas, sem ninguém por perto para ajudar nos unimos muito, minha mãe, irmã e eu, sentimos todos a traição, por mais que não fossemos culpados, ele não traiu apenas minha mãe com outra mulher, ele assumiu os filhos dela e não ligou mais no nosso aniversário, é algo que não entendo, e por mais que seja apenas da conta dos meus pais eu também me senti traído, não posso dizer que ele não tentou, mas quando tudo era muito recente evitávamos vê-lo em suas duas ou três tentativas de aproximação. Isso fez com que eu admirasse muito mais minha mãe, que voltou a estudar, sozinha e trabalhou para não precisar depender de qualquer condição de casamento por acomodação, entende?
Seria mais fácil aceitar a traição depois de 15 anos de casamento do que mandá-lo embora e voltar a estudar e assumir a casa e os filhos, mas ela optou por fazer o certo!
Serginho Tavares:
Como vê o preconceito contra gays hoje em dia? O que falta? O que acha que como cidadão pode ajudar a contribuir?
Renato Orlandi:
Essa é uma questão muito difícil, porque o Brasil tem muitas diferenças e mesmo aqui em São Paulo pude perceber que dependendo do lugar onde se está é visto de determinada forma por ser gay, mesmo dentro da capital onde possui, digamos um "pensamento mais evoluido" existe aquilo da "tolerância" mas não do respeito. No interior as coisas são bem piores e as pessoas bem mais enrustidas, acho que estamos muito atrasados, que temos um longo caminho pela frente e todas as condições de nos tornarmos exemplo nesse assunto, reconheço e vibro a cada pequena vitória, mas sei que isso não significa muito, é algo para ser sentido pela massa, no dia-a-dia daqui a muito tempo, digo isso porque o fato de algumas leis serem aprovadas não vai mudar o fato de eu ser xingado na rua, e só quem já foi xingado na rua entende. Acho que devemos continuar a sensibilizar as massas e tentar contruir um futuro onde a igualdade esteja realmente difundida por todos, mas é uma luta eterna, assim como a das mulhares ou dos negros. Acho que falta educação e respeito.
Sendo bem simples não entendo em que influência aquilo que eu faço na cama para o meu convívio social com as pessoas, mas estamos em evidencia, ninguém reconhece um pedófilo para ficar xingando na rua, ou alguem que gosta de inúmeras esquisitices para ficar batendo com lâmpadas. A população tem que ter um inimigo comum, ainda mais num país sem guerra ou desastre ou epidemias. E eu nem vou falar de religião. Talvez eu seja fobiofóbico. (risos)

(Continua...)

14 comentários:

Wanderley Elian Lima disse...

Olá Serginho
O Rê é um fofo. Aguardo o próximo capítulo.
Bjão

São disse...

Ficamos esperando o resto...

Abraços, meu amigo.

Edu disse...

Caramba!! Que bela entrevista, essa! Tanta coisa do Renateenho que eu não sabia. Aguardando pela parte 2 mas já deixando um beijo enorme pro ursinho mais lindo de SP!

Paulo Braccini disse...

O Rê é um dos blogueiros mais fofos q conheço ... pena q, depois q apaixonou, nos abandonou por completo ... mas a causa é nobre e está perdoado ...

Wans disse...

Renateeenho é fofo. Quando o conheci tive vontade de dar uma mordida. Fato.

Renato Orlandi disse...

HEhehehee.... Obrigado meninooos!!! Vcs são uns anjos! Adoro vcs! Prometo que estou me organizando para voltar! XD E ao Serginho tb, muito bom entrevistador, me inspirou muito conversar com ele! ♥

Fred disse...

Ele me abandonou, mas sou fã confesso do enfermeirinho... hahaha! Hugzzzzzzzz!

melo disse...

divo. fato e sumido mesmo.
quanta coisa, cadê a parte II? hein? hein?

H A R R Y G O A Z disse...

GREAT interview !!!

Gordo puto, amén disse...

Parabéns pela entrevista.

Franco

Hugo de Oliveira disse...

ficou ótima a entrevista...e essa parte então da mãe dele andando como a menina do filme O Exorcista...nossa muito engraçado viu...kkkkkkkkk


abraços

Edilson Cravo disse...

Parabéns Serginho por nos revelar um Renato tão consciente e antenado e parabéns ao Renato por ser um fofo. Abraços e lindo fim de semana.

Glaukitos disse...

Adorei! Que história de vida...cade a segunda parte?

Ro Fers disse...

ótima iniciativa e entrevista
É sempre bom saber um pouco mais de um blogueiro, e a gente aprende com algo vivido pelos outros...
Fato triste referente ao pai dele, lamentável....
Forte abraço!