terça-feira, 31 de julho de 2012

Junior (Identidade G)

O nosso entrevistado de hoje é o homem por trás do Identidade G,  Junior revelou-se nesta entrevista mostrando um lado seu que pouco conhecemos, mas acima de tudo, ele não causa surpresa alguma ao mostrar ser um grande ser humano.

Serginho: Junior, de onde surgiu a ideia do IDENTIDADE G?
Junior: Surgiu após uma sessão de análise (a análise durou 3 meses). Um dia, voltei pra casa com a mente borbulhando e achei que precisava fazer algo pra por pra fora todos aqueles pensamentos que a análise fazia brotar. Aí, veio a ideia do blog. E o blog substituiu a análise, kkk...

Serginho: Então você deixou de fazer analise por causa do blog? Fale mais a respeito.
Junior: Sim, posso afirmar isso. Bem, comecei a perceber que, apesar de não ter o profissional me escutando enquanto escrevia para o blog, senti que minhas reflexões eram mais digeridas por mim mesmo. Ideias surgiam a partir dos textos e eles me fizeram experimentar mais a vida. Não sei se me fiz claro.

Serginho: Sim, fez. Você tem um blog engajado, a ideia era esta desde o começo?
Junior: Não, no começo era era algo mais intimista. Porém, após perceber que eu desenvolvia melhor a escrita ao abordar assuntos da mídia, pensei que tanto eu como as pessoas que acompanham o IdG poderiam me conhecer melhor dessa forma. Toda vez que escrevo sobre algo deixo impressa a minha identidade

Serginho: Recentemente você pensou em abandonar o blog e fazer outra coisa. Porque e o que fez mudar de ideia?
Junior: Olha, agora vamos entrar num assunto de foro íntimo (rsrs). Mas foi um rompante. Eu havia acabado de criar o outro blog, "Dentro e Fora do Armário"('DFA') e, apesar de ser algo despretencioso - e até bobo -, achei que seria melhor levar adiante um blog divertido, com o qual eu me divertisse. Dou muitas risadas com aqueles gifs e as situações que crio em cima deles nas postagens do DFA. Depois, caí em mim. Mas foram os comentários dos leitores, inclusive o seu, que fizeram a ficha cair.

Serginho: Mas você poderia ter mantido os dois e não apenas acabar com o IdG, o que de fato houve por trás deste rompante?
Junior: Estou sendo sincero. Pode não parecer, mas o IdG me toma muito tempo, muito mesmo. Começa desde o momento no qual penso escrever sobre algo. Antes de mandar ver no teclado, pesquiso antes em outros sites e blogs para checar se aquela notícia tem fundamento, depois, a escrita, os links, as edições de fotos, etc. Enfim, tudo me fez pensar que era muito trabalho. O perigo desses pensamentos é que eles podem surgir num dia em que você não está com o humor em alta. Foi o que ocorreu. Decidi algo na hora errada.

Serginho: Sua mãe ou pai, enfim, se sua família, eles têm conhecimento do blog e se possuem, o que acham?
Junior:  Minha mãe e meus irmãos, sim. Já o meu pai, eu nunca conversei com ele sobre isso.

Serginho: Nos fale agora sobre a Cássia, de onde veio a ideia dela assinar a coluna "Papo de mãe"?
Junior: Ela me esceveu certa ocasião se dizendo encantada com o blog, me contou a sua história e, no final, eu que fiquei encantado. Chamei ela pra ser colunista do blog e ela topou.

Serginho: Porque ela não escreve mais?
Junior: Então, quando ela me enviou a última postagem publicada, me pediu uns quinze dias sem publicar porque precisava cuidar da mãe que havia sido internada por causa de uma doença grave (não lembro qual). Ela me pareceu arrasada com a situação e eu sugeri que parasse e só retornasse quando se sentisse menos aflita. Passaram-se meses e ela não me deu mais notícias apesar de eu ter enviado alguns e-mails para saber como ela estava.

Serginho: Espero que ela esteja bem, mas deixando o blog de lado agora, fale um pouco sobre você, coisas como onde nasceu, como foi sua infância?
Junior: Eu sou de Salvador, mas fui criado num ambiente rural. Meu pai tem uma fazenda de cacau onde mora até hoje. Minha mãe é professora e se aposentou como diretora de uma escola pública. Meus irmãos e eu tivemos uma infância feliz. Fomos bem educados pelos nossos pais que, financeiramente, nos proporcionou uma vida acima da média dos brasileiros (não éramos milionários, mas tínhamos ótima qualidade Ah, cheguei no Rio de Janeiro aos 24 anos. Hoje estou com quase 47).

Serginho: A respeito disto a Margot, do blog Ponta de Punhal, quer saber: como é seu relacionamento familiar?
Junior: Bom, creio que a Margot se refere ao fato de eu ser gay e como isso se reflete no âmbito familiar. Com exceção do meu pai, todos na família sabem da minha orientação sexual: mãe e irmãos. Não conversamos sobre isso no dia a dia e não há diferença do antes e depois. Os papos, as reações, o respeito, enfim tudo continua igualzinho

Serginho: Como foi a descoberta do sexo pra você?
Junior: Foi sofrida. Pelo tempo que demorei para sair do armário. Quando pensei que havia saído, há uns 18 anos mais ou menos, na verdade, de fato, eu continuava. Somente há pouco mais de 7 anos que efetivamente saí. Creio que sofri de homofobia internalizada. 

Serginho: Explique mais um pouco isso. Sexo era um tabu pra você?
Junior: Não era se eu o praticasse com pessoas iguais a mim; com a mesma linha de pensamento. Sendo mais claro, compactuava com aquele pensamento que podia viver a minha sexualidade sem ninguém saber. Tinha que encontrar outro gay assim, senão não rolava. Ainda hoje em dia, muitos gays experimentam isso, infelizmente.

Serginho: Tentou em algum momento manter uma vida heterossexual? Chegou a ter relações heterossexuais?
Junior: Sim, mas isso foi há muitos anos. Tinha aproximadamente 20 anos de idade. Mas com relação àquela época, eu não me condeno porque foi um processo que fez parte do meu crescimento. Aquela experiência foi válida. O sofrimento ao qual me referi na resposta anterior é condizente ao período posterior: o de quando pensei ter me aceitado.

Serginho: Mas foi um sofrimento este processo também?
Junior: Foi e não foi (rsrs). Como dito, eu estava me conhecendo em todos os aspectos, inclusive sexual. Porém, quando comecei a perceber que estava enganando as mulheres com as quais eu tentava me relacionar; que o sentimento nutrido por alguns 'colegas' era maior que amizade, resolvi pagar pra ver. Daí em diante, o sexo pra mim passou a ser algo prazeroso.

Serginho: Fale mais sobre a primeira vez, foi na adolescência? Com quem foi?
Junior: Digamos que sexo com mulher nunca foi sexo de verdade. Sequer foi sexo. Sexo de verdade, consciente, só ocorreu aos 21 anos de idade. Com homem, claro

Serginho: A transição da infância pra adolescencia foi tranquila? E adolescência como foi?
Junior: A adolescência foi tranquila, apesar - ou sobretudo - da minha imaturidade. Mesmo na adolescência, que é uma fase de descoberta, acredito que pensava como criança. O sexo não fez parte dela e isso me fazia ter atitudes infantis em comparção aos meus colegas da mesma 
idade.

Serginho: O ManDrag do blog Confessium quer saber: Que pensas da crise dos 40 (anos de idade) e sobre o caos que ela parece espalhar nas nossas vidas?
Junior: Essa pergunta do Man é complicada porque a resposta não se limta apenas ao avanço etário. Há outros aspectos envolvidos, como o sonho do casamento perfeito, aquele emprego maravilhoso, da casa linda, etc. A crise dos 40 me pegou em cheio por causa de tudo isso. Lembro que quando criança eu me projetava aos 40 anos de idade e me via possuidor daquela felicidade gerada nos filmes, novelas e  comerciais de margarina. Enfim, os 40 chegaram e não me tornei nada aquilo. Sou um ser comum, igual à maioria dos 200 milhões de brasileiros que fazem um dobrado pra levar a vida adiante.

Serginho: Porque saiu de Salvador e foi para o Rio?
Junior: Hmmm...Teve mais de uma razão, mas a principal delas foi a necessidade de liberdade mesmo. Longe dos pais, eu pressenti que desenvolveria melhor a homossexualidade. Eu havia retornado do Canadá, onde morei um tempo fazendo intercâmbio. Foi lá que percebi que precisava daquela liberdade

Serginho: Então vamos voltar um pouco, porque ir para o Canadá? O que te fez ir para lá?
Junior: Intercâmbio cultural. Tinha acabado de me formar em inglês e começado o curso de francês. A escola promovia esse intercâmbio e, no final do primeiro semestre do francês, surgiu uma dessas viagens. Pensei que seria melhor e mais rápido aprender a nova língua dessa maneira. E fui. Acabei treinando mais o inglês. Do francês não restou nada além da oportunidade de conhecer outro país (rs).

Serginho: Como foi esta experiência no Canadá? E como foi o começo de sua nova vida no Rio? 
Junior: Vamos por partes. A experiência no Canadá foi ótima, claro. A sensação que tive na época foi a de ter mudado de planeta e não de país. Era muita coisa nova e diferente de tudo que havia visto. Namorei um carinha lá - se é que podemos definir assim -. o Todd. Era um dos meus colegas da Universtité du Québec, onde estudei francês. Mas, com certeza, ele foi uma daquelas pessoas as quais me referi no início dessa entrevista. Ambos, ele e eu, achávamos que éramos felizes vivendo a nossa paixão à revelia dos amigos. De certa maneira, era excitante, mas poderíamos ter vivido algo ainda melhor se, mesmo naquela época, assumíssemos a relação.

Serginho: E a chegada no Rio? Porque escolheu o Rio de Janeiro?
Junior: Então, o meu primeiro namorado havia se mudado pra cá e me chamou pra passar uns dias. Nunca mais voltei a morar em Salvador, pois visitar eu vou de vez em quando.

Serginho: E hoje em dia, está namorando?
Junior: Não. Solteiríssimo.

Serginho: E sua vida profissional, como está?
Junior: Já estive melhor financeiramente (rsrs), mas joguei tudo pro alto. Eu havia me mudado pra São Paulo, onde morei durante cinco (longos) anos. Apesar de, no início, considerar que adoraria viver naquela cidade, cada vez que o tempo passava mais infeliz eu me tornava. Um dia pedi demissão e voltei pro Rio (sempre passava os finais de semana e feriados aqui). Hoje, sou um advogado autônomo e presto serviços esporádicos para alguns escritórios, pessoas físicas e pequenas empresas.

Serginho: E está mais feliz agora?
Junior: Sem dúvida!

14 comentários:

Cesinha disse...

Como não causa surpresa?! E eu não sabia que ele é soteropolitano... é assim?... e menino correndo no meio de cacaueiros! Mas o sotaque é tão “carioca da gema” que nem dá pinta... enfim, o Junior (que já não sei mais se tem dois “n’s” ou não) é um menino excelente! Uma coisa que sempre chamou a minha atenção é o seu senso ético, aliado ao respeito com que trata todas as pessoas que dele se aproximam. Fora que é uma pessoa super inteligente e culta! E que apesar disso tudo é modesto e simples, o que apenas reforça a admiração que tenho por ele. Quem tem um pouco mais de contato com ele sabe do que estou falando...

Ótima entrevista, perguntas interativas... maravilha! Parabéns aos dois!

Paulo Roberto Figueiredo Braccini . Bratz disse...

Parabéns ao Serginho e ao Junnior ... sempre bom conhecer melhor os amigos ... mas esta do Junnior ser Soteropolitano eu não sabia mesmo ... nunca imaginei ... tem tudo de um legítimo Carioca mesmo ...

bjão aos dois

Margot disse...

Gostei muito e gosto do IDG. O Junior o conduz muito bem, e mostra agora, a competência do homem por trás do blog.
Parabéns aos dois... trabalharam bem.
Gracias Junior por responder a minha pergunta. Relações familiares, por menos que a queiramos, são fundamentais no nosso dia-a-dia, e devem ser conduzidas a contento.
beijos aos dois

FOXX disse...

também não sabia q o Junior era bahiano. E eu preciso dizer: O Junnior é uma pessoa incrível, eu o admiro de verdade, queria ter a capacidade de ser minimamente parecido com ele.

Raphael Martins disse...

Só gente fina... Junnior, Serginho, ManDrag, Margot...

ManDrag disse...

Na dúvida se comente ou não... se diga tudo ou não... se ouse ser desafiador e me limitar aos salamaleques e bajulação, tão usuais nestes círculos blogueiros...

Mas como eu estou mesmo numa de "prá frente que é caminho", aí vai o que tenho a dizer: Junior, divorcia-te de vez do IdG e pega a vida pelos cornos sem temor. Sei que pensas que estás lá, mais ainda te falta o quase. O homem por trás do blog é muito mais que isso. E muito mais maravilhoso!

Ah! Eu falei directamente para o Junior o resto da bichesa que se abstenha de interferir.

Gostei da entrevista, mas ficou muito pela espuma. Faltou mais champagne.

Beijos para os dois. Vos amo!

Wanderley Elian Lima disse...

Foi muito bom saber um pouco mais sobre esse moço que eu gosto e respeito muito. Parabéns Serginho pela entrevista.
Meu carinho aos dois.

Junnior disse...

Pessoal, obrigado pelos comentários. Todos me agradaram e foi legal me revelar mais. Se não fosse a entrevista, talvez não falaria sobre alguns temas tão pessoais, mesmo com os amigos virtuais mais chegados.
Enfim, há certas coisas que é melhor dizê-las olho no olho, se é que me entendem...
Agradeço também ao Serginho pelo espaço e atenção. Ele foi 10. A entrevista rolou durante um papo gostoso no "msn" e nos divertimos bastante enquanto conversávamos.
Bjaum a todos.

Alan Raspante disse...

Mais um blogueiro que eu não conhecia..

Muito bom saber mais dele, e a entrevista foi excelente, Serginho :D

Fred disse...

Adooooooooooooooooro as entrevistas "sergísticas"... ficou show! Bjs!

Latinha disse...

Poxa... muito bacana a entrevista, suas perguntas foram muito pertinentes e permitiram que a gente conhece mais dele.

Depois vou visitar o blogue!

cleber eldridge disse...

E não é pra menos, por ele ser uma pessoa como é ... que faz tanto sucesso entre os blogueiros!

Ulisses Liu disse...

Ué, cabô? Tava tão bom...
(1) Em setembro vou ao RIO, quero um beijo! Rs
(2)Eu entendi tudo, porém, quero fazer uma pergunta, mas primeiro vou amadurecer uma postagem, que já estava em processamento aqui na cachola, mas ainda estava sem formato.

railer disse...

legal a entrevista. não o conhecia nem ao blog dele. vou lá depois dar uma olhada.

quanto à terapia, blog pode ser uma sim, mas a presença de um profissional com a pessoa vale muito a pena, pois o importante é a pessoa 'escutar' ela falando coisas que ficam internalizadas e que, às vezes, não saem em texto.