quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

10


Convite de ST a gente não declina, reclina e aproveita. Como abriu as portas (as pernas ainda estamos estudando como fazer) e estou imbuído do espírito listador, resolvi fazer uma lista com os 10 filmes que marcaram minha vida.

Coisa ingrata de fazer já que continuo vendo filmes e pode ser que amanhã ou depois essa lista seja ‘mentirosa’ mas, procurei focar naqueles que (conforme fiz na lista de discos) de alguma forma, deixaram alguma marca inequívoca e permanente em mim.

A lista, novamente, não está em ordem de preferência e para cada um aqui listado, há outros tantos que deveriam figurar o que não significa que goste menos deles. Espero que gostem e, se puderem, assistam.

1. Crepúsculo dos Deuses



O nome é Desmond, Norma Desmond. Obra-prima do (gênio) Billy Wilder a ser venerada, degustada, vista e revista. A trama é simples em si: roteirista fracassado e endividado cruza o caminho de estrela do cinema mudo reclusa e esquecida envolvendo-se em suas fantasias de um grande retorno às telas e de sucesso que um dia existiu.

Crítica ácida ao ‘star system’ (que vigora até hoje porem remodelado e adaptado aos tempos modernos) da época que começava a criar novos ‘deuses’ enterrando aqueles que não conseguiram fazer a transição do cinema mudo para o falado herdando, todavia, o mesmo estilo de vida de seus predecessores numa época em que haviam efetivamente estrelas e não celebridades.

A grande sacada do filme foi ter usado Gloria Swanson (estrela do cinema mudo) no papel de Norma Desmond já que esta era efetivamente um eco real do personagem, guardadas algumas proporções, dando a ele tons realistas. Isso aliado ao defunto-narrador, fato insólito para a época já que o filme começa pelo fim.

De certa forma, vejo cada um de nós como Normas Desmond conforme os anos se passam e vamos ficando mais no passado enquanto novos astros entram em cena e isso digo sem rancor ou fel já que é fato inexorável. Porém, como ela, quem de nós não anseia em ter sobre si novamente as luzes dessa ribalta ao invés do pano caindo?

2. Cidadão Kane



Charles Foster Kane, magnata da mídia que construiu um império ao seu redor cercando-se de coisas belas e caras, comprando tudo que podia e não podia, manipulando tudo/todos ao seu redor para atender aos seus interesses travestidos em informar o publico com a verdade e nada mais que a verdade.

Orson Welles (ator e diretor) nunca confirmou o fato mas é comumente aceito como um film à clef inspirado em Wiliam Randolph Hearst (magnata da mídia americana do começo do século XX).

O filme é marcante pois a vida de Kane é contada em flash back e não pelo próprio mas pelas pessoas próximas a ele (amigos ou nem tanto) entrevistadas por um repórter encarregado em fazer uma matéria sobre o ‘grande homem’ por ocasião de sua morte (num paralelo com ‘Crepúsculo dos Deuses’, o protagonista do filme também é defunto). Tudo isso faz de Kane um filme único para a época além de outras técnicas inovadoras de filmagem e de uma cena final que até hoje é usada como referencia no cinema.

Impossível não fazer paralelos com outras figuras de nosso tempo como Roberto Marinho, Silvio Santos. Sabe-se que um filme é imortal quando mesmo depois de décadas, ao assisti-lo, temos a impressão de que foi feito ‘ontem’.

Cidadão Kane é um desses raros casos e, sendo clichê, o preço que se paga por realmente conseguir tudo que se quer.


3. Beatiful Thing



NYC, lá pelos idos de 1997/98. Eu e um grande amigo perdidos na cidade-maçã, feitos vermes da fruta, comendo cada pedaço dela em lugares, luzes, sons e imagens.

Namorava à época, primeira vez, coisa conturbada e perturbada, disfuncional mais por novos que éramos e imaturos no amor ainda esse que não diz(ia) o nome. Enfim, eu e esse amigo vagando por NYC soubemos de uma mostra de cinema LGBT que ia por alguns pontos da cidade e lá fomos nós, não me recordo exatamente onde, assistir a esse filme inglês.

Saí do cinema transtornado, extasiado, como se minha vida tivesse passado para a tela, como podia aquele filme dizer tanta coisa que eu nem sequer sonhava em ouvir? Lembro que saí tão agitado que procurei o primeiro telefone publico e liguei para meu namorado no Brasil chorando ‘eu te amo’ e com uma vontade imensa de tê-lo em meus braços.

O filme trata o amor guei de uma forma singela, pura, simples, honesta e sem estereotipar; na época, quando ser guei era algo ainda estranho e havia o panicaids, ver e ouvir tudo aquilo fez uma diferença imensa e também fez com que eu tivesse ainda mais fé no amor que sentia e no tipo de vida que eu sabia ser o certo para mim.

Tudo isso devidamente amparado por uma trilha recheada de clássicos de ‘Mamas & The Papas’ e Mama Cass, as canções caem feito luva e apesar de serem clássicos eternos, depois do filme, me é impossível desassociar as mesmas das cenas do filme.

4. Hedwig & The Angry Inch



Ela veio do outro lado, de uma cidade dividida em duas. Assim como a Berlim pós-guerra, Hedwig foi dividida em dois e busca sua identidade perdida e sua unidade.

Há uma certa critica se considerarmos Luther, o soldado americano ‘capitalista’ que seduz Hansel, o guei jovem ‘comunista’ ambos atraídos pelo objeto do desejo proibido pois pertence ao outro lado em todos os sentidos. Porém, o capitalista depois de adquirido o alvo da sedução, troca por modelo mais novo como prega a cartilha e deixa Hansel com o altíssimo preço pago por atender não a si mas aos desejos do outro.

Essa busca é amparada por números musicais poderosos, eletrificantes e é impossível não ver um pouco de si em Hedwig já que somos divididos, sempre na busca seja de algo ou alguém e muitas vezes delegamos a outros essa tarefa quando ela é exclusivamente nossa.

Isso nos põe como alvos de fácil controle e enche as clinicas de psicanálise.


5. Blade Runner



Quando o gênero SciFi parecia já meio esgotado ou apenas vivendo de restos de Star Wars ou 2001, Ridley Scott desenterrou o film noir e o jogou anos-luz a frente usando como base uma das obras do profético Philp K. Dick; resultado: Blade Runner.

Creio que esse filme inaugurou uma outra via de SciFi onde o futuro não era um paraíso mas um lugar sombrio, super povoado, cinza, saído das paginas de um Dashiell Hammet futurista (leia-se K. Dick). Esqueça a versão do estúdio que ciente do clima noir empresotu uma narração em off ridícula e que explica o filme. A versão de Scott, liberada anos mais tarde, é simplesmente genial e é impossível não cair de amores pela Rachel.

No mais, é uma grande releitura do eterno conflito humano criador/criatura e porque o primeiro nos fez finitos, com prazo de validade.


6. 2001: uma odisséia no espaço



Kubrick dispensa maiores apresentações. Se ‘Blade Runner’ reciclou e recriou o gênero, 2001 simplesmente reinventou e, pensando bem, não considero como SciFi mas como drama, um épico sobre a raça humana como um todo, evolução, criador/criatura e novamente a questão de porque estamos aqui.

Lembro de ter assistido no ultra falecido Cine Comodoro (hoje uma das IURDs da vida), era a a maior tela de SP num tempo onde ir ao cinema era algo realmente mágico e não coisa de botequim e gente que estaria melhor nos pastos que nas salas. Levei anos para finalmente achar a minha interpretação do filme (ache a sua) mas, acima de tudo é uma maravilhosa parábola de como a evolução pode ser bela e ao mesmo tempo pavorosa.

HAL9000 virou referencia e pode ser ‘visto’ em uma centena de filmes que vieram depois e deu uma ajuda aos clássicos pois Kubrick, atento ao rigor cientifico, não permitiu que as cenas espaciais tivessem som (lá, pelo vácuo, o som não pode propagar-se) e para não deixar o filme com longos minutos de silencio, usou  abusou de música clássica (Strauss).
O filme em si tem poucos diálogos considerando a duração do mesmo (161min) e é dividido em quatro partes: A aurora do homem, TMA-1 (já no futuro onde o espaço está sendo dominado), Missão Júpiter e Júpiter alem do infinito.

Para assistir louco de ácido e discutir bêbado no bar.

7. Quem tem medo de Virginia Woolf



Filme bom para ver juntinho com seu amor num daquele dias chuvosos e frios, faz bem para a relação, fortalece, aproxima, isso ou vai por os dois na delegacia mais próxima ou necrotério.
Elizabeth Taylor e Richard Burton estão pra lá de reais como casal neurótico, etílico e problemático (muito provavelmente refletindo a relação conturbada dos dois na vida real, cheias de idas e vindas e toneladas de substancias licitas ou não) que recebe a visita de um outro casal recém unidos e com todas aquelas expectativas e sonhos que se estendem a sua frente.

O casal velho vai sorvendo aquela juventude que não lhes pertence mais entre litros e mais litros de álcool e destilando ante os convidados todas as suas mazelas levando-se a enfrentar a suas por tabela num crescendo desconfortável como poucas vezes vi em um filme.

Os diálogos são soberbos, filme denso, pesado, arrastado, se você é solteiro vai pensar muito antes de casar.

8. Polyester



John Waters, eu te amo! Poucas pessoas conseguiram mostrar tão cruamente o mondo trasho como você.

Familias que dão um sentido novo a palavra disfuncional e situações tão escabrosas que de tão ruins acabam tornando-se boas. É o cinema dos excluídos, párias, degenerados, desajustados, pervertidos, tarados, atormentados; é filmado assim, parece que alguém pegou a câmera e, invisível, conseguiu filmar a intimidade dos vizinhos trazendo a tona todas as suas taras, demências, perversões, tudo aquilo que guardamos dos outros porque não é de bom tom mostrar, viva a mascara ou até a mascara da mascara no caso dos gueis.

Polyester foi minha porta de entrada para o mundo maravilhoso de Waters, nunca mais achei o caminho de volta (nem quero) e Divine (o transformista eternizado por ele em quase todos os seus filmes e tristemente ido nos anos 80) é umas das melhores atrizes não-atrizes que já vi, sou fã, amo profundamente.

Na Virada Cultural de 2010 assistimos a ‘Pink Flamingos’ num cine pornô da boca do lixo do centro de SP, melhor lugar impossível para louvar Waters e Divine. Graça foi ver gente sair no meio da projeção, certamente desavisados que os filmes de Waters são para os de estomago forte, melhor, mente forte e livre de dogmas ou preconceitos.

9. Alien: o oitavo passageiro



Segundo filme de Ridley Scott da lista, esse cara é foda mesmo!

Não satisfeito com Blade Runner (ainda que este tenha vindo depois) ‘criou’ outro filão de SciFi que depois migrou para jogos como ‘Dead Space’ e afins de terror espacial. Assisti no cinema também e lembro de ter saído me borrando de medo.

O filme é claustrofóbico, angustiante e o grande trunfo e não mostrar a criatura por inteiro quase nunca, você a vê de relance, rapidamente o que apenas empresta mais medo já que o maior temor não é do que vemos mas do que não podemos ou conseguimos ver bem.

Não há como negar a metáfora de doença e, penso eu, com fortes tons sexuais e inversão de papéis arquétipos já que Ripley (Sigourney Weaver) é o ‘macho’ do grupo e não a vitima indefesa afinal, quem traz o monstro a bordo é um homem ‘violentado’ por um alienígena e que depois ‘dá a luz’ a outro ou seja, os medos básicos do macho e, extrapolando um pouco mais, talvez até mesmo beirando o medo de uma sexualidade reprimida ou mesmo do sexo ‘não convencional’ como via de doença e morte numa época em que AIDS era algo inexistente ou desconhecido das grandes massas.

10. Reliquia Macabra



II Guerra, o mundo cheio de medo e incerteza e pouca grana, ainda era preciso produzir filmes já que a realidade era assim tão dura, levar as pessoas a pensar em outras coisas mas, ainda assim, não deixar de lhes mostrar que o perigo vinha de fora.

Como a grana andava curta nada melhor do que fazer film noir principalmente pela falta de recursos para grandes produções (considerando que para esse tipo de filme não era necessário lá muita coisa) e depois, como disse, para mostrar ainda como andavam os humores no mundo, preto e branco, sem espaço para muitas cores, esfumaçado e sem uma clara visão de quem era bandido ou mocinho, possivelmente um pouco de cada.

Reliquia Macabra cumpre esse papel com maestria, sua trama rocambolesca requer atenção máxima ao filme ou você vai se perder entre diálogos e personagens que entram e saem. Imortalizado por Humphrey Bogart fincou o papel de detetive cafajeste mas bem intencionado e que não leva a melhor apesar de vencer o bandido mesmo porque, como disse, a linha que separa ele do vilão é demais tênue.

Creio que esse tipo de filme antecipou o clima de guerra fria que veio logo após o fim da II Guerra e em sua esteira influenciou outra centena de filmes até mesmo hoje (Ed Mort é uma excelente sátira desse tipo de personagem e filme).

5 comentários:

FOXX disse...

adorei a listagem, mas a melhor descrição foi de Beautiful Things porque o Melo também disse pq aquele filme o tocou, nos outros ficou muito mais focado no filme que em como o tocou.

Paulo Roberto Figueiredo Braccini . Bratz disse...

uma listagem de peso ... coisa muito difícil de fazer ... uma listagem deste tipo ...

bjão

Fred disse...

Melo fala e gente cala! Lista de responsa, com R bem maiúsculo, meu filho! Aplausos!

E sim, mando o pedreiro... mas vou junto! Rola? Hahahaha! Bjos!

tavares disse...

Todos estes filmes são maravilhosos e representam bem toda a arte cinematográfica, representam bem você, meu amigão!
Te adoro.

ManDrag disse...

Bons filmes.

Beijos