sábado, 23 de fevereiro de 2013

31


A espuma branca, cheia de pequenas bolhas universais ensimesmadas de sonhos, desfazendo-se na areia cálida do fim de dia enquanto à linha dos olhos o mar já negro a seus pés adquirira ao longe tons borrados e alaranjados sugados do sol que ia mergulhado já pela metade naquela faixa de mundo sem dono, etérea, paralela, entre os dois destinos e sem pertencer a nenhum deles.

Os dedos dos pés lambiam sôfregos a espuma salgada e se pudessem, cuspiriam, mas simplesmente enfiavam suas bocas fundo na areia morna, feito mariscos assustados. Os olhos iam daquele gesto simples ao tremulo horizonte refletido nas águas tingidas na distancia, buscando algo que saísse de um dos universos em colisão e lhe mostrasse que havia um sentido embutido em tudo ou quase tudo.

Aos poucos a praia ia enchendo-se de pessoas em alvas cores, carregadas de frutos, flores e desejos não feitos do ano moribundo para vê-los afogar nas águas salgadas e, oxalá, dia seguinte não devolvidos à praia, vingarem no ano vindouro. A noite caía agora voraz, fome das oferendas, ia devorar os sonhos de uma bocada só, os dele também, ali em pé, olhando s luzes da orla bruxuleando nas ondas que davam na praia.

Foi se formando uma profusão de pequenos pontos de luz na areia, coisa barroca, crendice branda, pura e insípida expressa nos ramos de flores brancas, barquinhos cheios de quinquilharias de segunda, gente pulando sete vezes e aspergindo a água benta salgada por sobre os ombros. Ele sem nada, um botão sequer, um ramalhete, uma oferta pífia que fosse nada a não ser as mãos abanando e o coração leve largado lá na frente onde as ondas se formavam pela tragada da divindade.

Orou, de mãos limpas e olhos fechados, coração arregalado, pernas bambas; nunca feito às festividades pagãs ou não, convertido agora em crente vitima do amor cedo demais partido, quebrado, tirado de si a metade que nem chegou a saber o contorno. Chamou a divindade, pediu, tudo em troca, nada prometido, bastava ser de novo com ele, ainda que por apenas sete ondas, sete mares, sete vidas, sete amores.

O que os céus não podem saborear, visto que a eles foi demasiado cedo, deixe a terra sorver o gosto até que ele se dissipe da boca deixando nada mais que ar quando, finalmente, for buscar ares mais divinos, etéreos e eternos ainda que o coração guarda, para sempre, o gosto. Abriu os olhos e neles havia ondas, as luzes das velas fincadas na praia eram pequenos caleidoscópios burlando sua visão.

Do mar, foi assim vindo uma forma, não sabia se a umidade ocular ou as oferendas pulando ondas lhe tiravam a presteza do sentido; olhou ao redor, as pessoas ainda em cantilenas, pulando lá suas sete vagas, conduzindo seus barquinhos mar adentro, não afeitas àquilo que saia do mar.

Esfregou as vistas com vigor, forçou novamente o olhar. No céu, poucas nuvens em vinho se debatiam ante o estrangulamento final do dia, vinha em sua direção, saído do mar, da noite, das ondas, de si, não sabia, foi chegando era a dona das águas, olhou aparvalhado aos lados, nada, ia chamar os outros que podiam lhe dizer que estava ou não dono de si mas as águas que seduziam seus pés eram agora cimento e não podia mexer-se.

Finalmente, estava a poucos metros de si a divindade, procurou divisar sua forma, sua indumentária mas quase caiu de costas quando na verdade se viu ante dele, aquele que fora antes de completar o adeus (que só termina quando não sabemos ter dado o olá), parvo e pálido, estremecia em medo até que o tocar leve e úmido na face lhe trouxe o sentimento do toque já perdido, jamais olvidado.

Fechou e abriu os olhos sequencialmente, como para ter seguras quantas listras tinha o tigre e, lhe sendo impossível dirimir sobre tal quantidade tão impar e universal, fixou os olhos no amor marítimo que lhe estendia a mão leve, pacifica, doce, serena.

Foi-se. No dia seguinte, comentou-se exaustivamente que, naquele ano, nada dera à praia depois, todas as oferendas haviam sido solenemente aceitas.

4 comentários:

Paulo Roberto Figueiredo Braccini . Bratz disse...

o amigo anda numa fase de inspiração q causa inveja viu!

beijão

ManDrag disse...

Inspirado. ;)

Beijos

Fred disse...

Arrasando geral - como de costume, claro! E tipo assim: eu jurava que vc é quem ia usufruir do meu joystick!!! Hahahaha! Bjos!

tavares disse...

é de deixar sem ar... esse é o Alexandre de sempre: inspirador!

que honra ter você aqui! que honra!