segunda-feira, 11 de março de 2013

De vidro


Era uma garota comum.Tão comum como um copo d’água.
Mas tinha um coração de vidro. Por um defeito congênito nascera assim e em seu peito podia-se ver através da caixa toráxica o coração de vidro bombeando sangue com vigor e idêntico a um coração normal.
Penara muito na infância, os pais haviam lhe podado a convivência de outras crianças com medo de que as maldades infantis, sempre pérfidas, lhe quebrassem o coraçãozinho transparente.
Estudara em casa e, com os poucos amiguinhos que conseguira ter, brincara sob a supervisão onisciente dos pais e só ganhara as ruas já moça feita não podendo mais os pais temerosos prender em casa os desejos e anseios da juventude translúcida.
Fora uma adaptação difícil e ela teve seu coração riscado e trincado várias vezes mas, com o devido tempo, seu coração se curava e voltava a ter a superfície clara e transparente da infância.
O tempo passava rápido e ela sentia que seu coração vítreo sentia a falta de algo só não sabia o quê. Procurava entre as amigas a chave do enigma. Rogou aos pais que lhe dissessem o que havia de errado com seu coração com medo de que por alguma fatalidade seus dias estivessem contados.
E então, uma amiga muito íntima lhe sussurrou um dia o que lhe era incompleto: ela precisava amar. Tremeu tanto que achou que o coração lhe fugia do peito, mas sentiu que as palavras da amiga eram certas e pôs todo seu empenho dali pra frente em amar.
E amou. Conheceu um rapaz que lhe fez o coração brilhar como cristal e bater como no peito funcionasse uma forja. Sentia o mundo como um lugar único, matara os temores de infância e os arremessava anos-luz à sua frente para uma época onde todos seriam melhores. Tinha fé em tudo e imaginava que, como ela, todos tivessem um coração de vidro.
E um dia, como temiam os pais ao ver o brilho do amor no peito da filha, ele se quebrou com juras desfeitas e promessas feitas de vapor. Nesse dia escuro, ela pegou todos os pedaços de seu coração, um a um, e recolheu-se em seu quarto não querendo ver as amigas, nem mesmo atendendo aos apelos da mãe.
Juntou todos os pedaços em silêncio monástico e usando como cola a tristeza e o rancor revestiu-os com carne em raiva e injetou-lhe vida nova com decisões vingativas.
Dormiu.
No dia seguinte espanta-se a mãe ao acordar a filha e ver-lhe o peito fechado, sem cicatrizes. Não se podia ver o mínimo sinal do belo coração cristalino que ela tanto admirava. Senta-se aos pés da cama da filha e chora, soluçando baixinho. A filha agora tinha um coração de verdade.

3 comentários:

tavares disse...

Mais um belíssimo texto, o que dizer? Nada! Aplausos de pé!

Paulo Roberto Figueiredo Braccini . Bratz disse...

Muito difícil comentar os escritos do Melo ... ficam os aplausos de sempre ...

Fabio Fernandes disse...

Olá, Melo!
Como já vir dizer: "o nosso coração é enganoso"... Parabéns, pelo o texto! Abraço. www.beabadosucesso.com.br