quarta-feira, 6 de março de 2013

luz suave


Largou a faca e a batata. Apoiou-se na pia com as mãos, virou para ele que estava sentado à mesa e disse:

‘É hoje Arnaldo! Vou ser abduzida!’

Ele tirou a cara do jornal e olhou bem para ela por um segundo:

‘Vai o quê?’

Ela enxugou as mãos no pano de prato, pegou a faca e a batata fujona, colocou-os sobre a tábua de cortar carnes e voltou taxativa:

‘Eu lhe digo, é hoje! Tenho certeza! Vou ser abduzida, Arnaldo!’

Ele soltou um gemido de descaso, olhando de volta para o jornal:

‘Mas que asneira é essa hein?’

Ela olhou pela janela, para o quintal pequeno que tinham. A grama precisava ser cortada mas ela não estaria ali, será que ele lembraria de cortar?

E os passarinhos? Ele lembraria de trocar a água? O jornal que forrava as gaiolas? Por o jiló? Colocá-los no sol? E quem faria o almoço? A janta? Quem passaria o café? Ela podia demorar, não sabia.

‘Arnaldo, e se eu me demorar dessa vez? Quem cuida das coisas aqui?’ perguntou.

Ele levantou-se e abriu a geladeira, pegou uma garrafa d’água e bebeu no gargalo um longo gole.

‘E você vai aonde Ivete? Até a lua?’

‘Estou falando sério!’ disse ela ressentida ‘Da última vez a casa estava uma bagunça só quando voltei!’

Ele fuçava as panelas como se elas possuíssem segredos.

‘Você vai fazer bife à milanesa?’

‘Arnaldo! Você nem dá atenção né? Já disse que hoje eles vêm me buscar homem!’ disse ela batendo nas mãos curiosas dele.

‘Tá bem, ta bem!’ disse ele voltando para a mesa ‘Foi igual das outras vezes, essa palhaçada de que eles vêm te buscar e bla bla bla e no fim nada acontece’. Ela olhava para as batatas como se elas fossem as únicas que a entendiam.

‘Você sabe que não é assim’ disse ‘eles fazem parecer que nada aconteceu mas só eu sei o que eu passei’ finalizou ensaiando um choro. Ele, sentindo-se culpado, resolveu baixar a guarda, o médico havia dito que ela podia ficar sensível mesmo com a medicação. Recomendara que ela não fosse contrariada desde que isso não afetasse o resto da família.

Ele bem que tentava mas era difícil e as crianças passavam maus bocados nas mãos dos amiguinhos. Geralmente ela nem tocava no assunto mas quando cismava que ia ser levada era aquele inferno.

‘Olha’ disse ele ‘se te deixa mais calma eu cuido de tudo aqui tá bom?’

‘Você?’ disse ela abrindo um olhão ‘Essa eu quero ver! Da última vez eu vi!’]

‘Tá bom Ivete!’ interrompeu ele ‘Eu chamo minha irmã ou chamo uma empregada tá bem? Até você voltar’

‘Você acha que eu estou louca!’ disse ela encarando de novo as batatas.

‘Não, nada disso mulher!’ disse ele levantando-se e indo para perto dela ‘Prometo que cuido de tudo aqui’ e beijou-lhe a testa de leve.

‘Olha, as crianças daqui a pouco chegam pra jantar’ disse ele tentando mudar o rumo da conversa.

‘Ai meu Deus! Nem fritei as batatas ainda!’ disse alarmada e afastou-o para continuar seus afazeres.

O jantar transcorreu normalmente. As crianças brincando com a comida, ele ralhando com elas, ela perguntando se eles estavam bem na escola. Ele agradeceu por ela não ter comentado nada na frente dos filhos o que certamente teria transformado o jantar em uma cena digna de novela.

Acabaram de comer e as crianças foram para o quarto ver tv. Ele perguntou se ela queria ir para a sala, ela disse que iria em um minuto era só por a louça de molho. Na sala, os dois e a tv ligada mas nem um nem outro ligados.

‘Arnaldo...’ disse ela.

‘Hum?’respondeu ele sem tirar os olhos da tv.

‘Você vai lembrar de cuidar dos passarinhos?’ perguntou ela.

Ele pensou por um momento, queria responder de outra forma mas conteve-se:

‘Claro, cuido de todos eles, pode deixar’.

Meia hora depois eles vão para o quarto, dão uma olhada nas crianças antes, elas dormem tranquilas. Escovam os dentes, conversam amenidades antes de ir dormir. Ajeitam-se na cama, trocam as últimas palavras antes de dizer boa noite e apagam a luz. O sono vem rápido, montado nas costas do cansaço tedioso. O sonhos são arrastados, pesados mas sem medo. Apenas pedaços da realidade remodelados.

Alta madrugada ele acorda assustado, suando. Não estava tão quente assim ele imagina. Olha para o lado onde deveria estar a mulher, o espaço está vazio. O travesseiro ainda tem os contornos de sua cabeça.
Ainda meio dormindo percebe que o quarto está levemente iluminado.

‘Ivete?’ chama. Olha para a porta do banheiro mas ela está fechada e lá dentro a luz está apagada. 'E essa luz?'pensa e olha para a janela do quarto e percebe que ela está aberta. A luz vem de lá. Ele se levanta, atrapalha-se com o lençol e chega junto a janela.

Lá no alto, no meio de uma luz suave, está Ivete, suspensa no ar, voando como um anjo. Ele fica ali de boca aberta, não consegue articular uma palavra sequer, só consegue olhar para ela indo cada vez mais alto naquela luz.

Quando já quase a perdia de vista ouve sua voz vindo lá de cima, como um eco:

‘Cuide dos passarinhos!’

9 comentários:

Dil Santos disse...

Serginho amigo, fiquei arrepiado, srsrs
Amei, rs
Bjo

melo disse...

Gracias a Tavares por me fazer o convite que aceitei com orgulho!!!

Paulo Roberto Figueiredo Braccini . Bratz disse...

Melo arrasando como sempre ...

beijão querido ...

Wanderley Elian Lima disse...

Realista e fantástico, ou será realismo fantástico? Amei
Bjux Melo

FOXX disse...

e não é que ivete foi abduzida mesmo.

Fred disse...

PERFEITO! E digo mais... acho que hoje sou eu quem vai ser abduzido... hehehe! Muito bom, Melozete! Bjs!

Edilson Cravo disse...

Serginho:

Uau.....amei...rs

Beijos aos 2.

Teago de Assumpcao disse...

tadinha da ivete, ela se foi...
espero que o arnaldo cuide dos passarinhos...

tavares disse...

Pois quero só ver se o Arnaldo não vai cuidar dos passarinhos... Mais um brilhante texto meu amigo! É maravilhoso tê-lo aqui! Obrigado.